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Carreira & Maternidade: Filhos de Mães que Trabalham se Tornam Adultos Felizes

8 de maio de 2019
Natalia Leite

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Carreira & Maternidade: Filhos de Mães que Trabalham se Tornam Adultos Felizes

Sou filha de uma mulher que sempre trabalhou fora.  E muito. Ser mãe e ter uma carreira não era a regra entre as famílias de classe média do bairro onde cresci em Brasília.  Na infância, me acostumei a ouvir das mães de amigas, com pesar, “sua mãe trabalha taaanto, né?” Era lamento mesmo. Elas tinham dó porque acreditavam (muitas ainda acreditam) que se dedicar 100% aos filhos é o único caminho para evitar distúrbios no comportamento e na saúde.

Se você perguntar numa sala cheia de mulheres que trabalham, quantas se sentem culpadas por não estarem com seus filhos naquele momento, pode apostar que a maioria vai levantar a mão. Com tantas gerações reforçando a ideia – mãe em tempo integral, filho feliz – ela passou a ser uma ‘verdade’. Quem é que vai questionar um dos estereótipos mais profundamente arraigados na nossa cultura? Felizmente, a ciência.

Nos últimos anos, uma série de estudos têm buscado compreender os impactos das escolhas maternas no futuro das crianças. A pesquisadora Kathleen McGinn, da Universidade de Harvard, é a responsável pelo trabalho que no ano de 2015 constatou o impacto positivo da carreira da mãe aos filhos. O estudo de McGinn comprovou que crianças educadas por mães que trabalham fora têm melhor desempenho no mercado, mais chances de assumir posições de comando e de conquistar salários melhores.  

O raciocínio é simples: o humano aprende pelo exemplo. Do falar na primeira infância ao se comportar ao longo da vida, esse bichinho chamado sapiens é dependente da modelagem do que vê nos mais próximos. Por isso, mulheres que investem nelas mesmas – têm seus trabalhos, seus projetos – acabam ensinando às suas crianças como buscar realização pessoal e profissional.

No ano passado, Harvard publicou novas descobertas nas pesquisas de McGinn. Não apenas os filhos de mães que trabalham vão melhor como profissionais na vida adulta, mas também são tão felizes quanto aqueles criados por mulheres que se dedicam exclusivamente ao lar. À medida que constatamos que nossos filhos não estão sofrendo, espero que a culpa das mães que trabalham vá embora,” disse a pesquisadora ao portal da Harvard Business School.

São dados de uma das instituições de ensino mais respeitadas no mundo. De uma pesquisa longa, com potencial de tirar um enorme peso das costas de mulheres que fazem malabarismos para trabalhar, dar o melhor para seus filhos e ainda se sentem culpadas por isso. Essas informações merecem mais divulgação, não é mesmo?  Se você conhece uma mãe que trabalha e se sente culpada por não passar tanto tempo quanto gostaria com os filhos, por favor, compartilhe este texto com ela.

Carreira & Maternidade: Mundo Real x Mundo Ideal

Optei por começar pelos fatos comprovados pela ciência, pois finalmente tiram esse fardo que as mães trabalhadoras carregam. Contudo, a intenção deste texto é trazer um panorama completo sobre o assunto e contribuir para que cada mulher e cada empresa faça o que estiver ao seu alcance para equilibrar carreiras e maternidade. Portanto, vamos falar também dos problemas.

Quando o assunto é carreira e maternidade não há copo meio cheio ou meio vazio.  O copo está, de fato, meio cheio e meio vazio. Apesar do alento que trazem as pesquisas mais recentes e de algumas empresas estarem atentas às necessidades de grávidas e mães em retorno da licença maternidade, a realidade ainda apresenta desafios gigantescos.  Você vai encontrar aqui informações sobre:

  • Como o mercado fecha portas para grávidas, mães com filhos pequenos e até mulheres em idade fértil. O que fazer para mudar essa realidade
  • O desafio do equilíbrio entre os papéis de mãe e profissional
  • A gravidez e trabalho
  • O que o RH pode fazer para transformar maternidade e carreira em aliadas

Carreira & Maternidade: Barreiras de Entrada e de Ascensão

Se você é homem, nunca deve ter passado pela situação descrita a seguir. Mas se é mulher, pode reconhecer a cena. Você tem experiência, qualificação, chega à entrevista de emprego preparada para responder os questionamentos da empresa sobre sua função e suas habilidades.  No entanto, o que interessa ao entrevistador é saber: você tem filhos pequenos? Pretende engravidar nos próximos anos?

Em muitas organizações a maternidade não é vista como um fato natural, do qual a humanidade toda depende, mas como um problema. Frequentemente a mulher em idade fértil ou com filhos pequenos é preterida, mesmo que tenha formação equivalente ou melhor que os demais candidatos. Também acontece de a empresa desconsiderar mulheres plenamente capazes de oportunidades de promoção pelo “risco” de gravidez. E há ainda as profissionais que preferem, por convicção própria, não assumir cargos maiores quando a maternidade está nos planos.

Em todos os casos, abrir novas possibilidades de escolha depende de educação.  As lideranças, candidatas e profissionais precisam entender e valorizar as competências que uma mulher ganha ao se tornar mãe.  São skills que podem contribuir muito com a empresa. Converse com uma mãe e ela vai narrar o quanto se tornou mais flexível, empática, assertiva, resiliente e produtiva com a chegada de seu bebê.  Importante ressaltar que são justamente essas habilidades socioemocionais que aparecem em estudos – do Fórum Econômico Mundial, ONU e tantas outras organizações – como essenciais para as empresas que querem prosperar no mundo incerto, volátil e complexo da indústria 4.0.

O desafio para todos os envolvidos é sair do piloto automático que associa maternidade a perda de performance, e rever – com neutralidade e objetividade – as possibilidades de adequação e os impactos da chegada dos filhos na vida de uma mulher. É claro que, em especial nos primeiros anos do bebê, conciliar maternidade e carreira sobrecarrega a mulher.  Mas é fato também que, quando ofertadas condições, as mulheres administram essas demandas se superando, não causando prejuízos.

Licença Maternidade: Porta de Saída

Os números comprovam o tamanho do desafio que temos como sociedade.  Por mais competente que a mulher seja, a chance de ser expulsa ou escolher sair do mercado de trabalho ao se tornar mãe é grande. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas mostra que metade das brasileiras fica desempregada dois anos depois da licença.  A porcentagem de desligamento tem relação com o nível de escolaridade das mulheres. Quanto maior a instrução, mais chances de ficar no emprego. Já as funções de menor qualificação têm índices mais altos de desligamento pós licença.

Entre os fatores que criam essa realidade nas funções de remuneração mais baixa, estão a falta de creches públicas e decisão das empresas de demitir por acreditarem que as demandas dos filhos prejudicarão a performance. Como empresas focadas em encontrar alternativas para reter talentos femininos ainda são exceção, abdicar da carreira e ficar com os filhos se torna a saída mais atraente entre as mulheres que têm condição familiar de abrir mão da própria renda.

48% das mulheres estão desempregadas dois anos depois da licença maternidade.

A outra metade das mulheres, as que ficam no mercado, fazem mágica para adaptar suas vidas e de suas famílias. Está na hora das empresas começarem a fazer a parte delas também. Há motivos de sobra para isso e eles não são apenas politicamente corretos.  São razões inteligentes, como o fato de que empresas com mulheres na alta gestão são mais lucrativas. E que a melhor maneira de fazer mais mulheres chegarem ao topo é facilitar a permanência e ascensão das mães.   

Mãe e Profissional: O desafio do equilíbrio

A maior parte das famílias, organizações e colegas espera o impossível.  Esperam que a mulher trabalhe como se não tivesse filhos e, ao mesmo tempo, seja mãe como se não tivesse carreira. Ninguém fala, mas essa expectativa irreal paira no inconsciente coletivo.

Por isso é que em alguns casos, a mulher volta da licença e acaba trabalhando mais que antes, para provar que é tão capaz quanto na era pré-maternidade.  Algumas vezes a motivação é interna – parte dela mesma – outras vezes das pessoas à sua volta, que inconscientemente, reforçam a execução do roteiro.

Em outros casos, a cultura organizacional tem a intenção de “ajudar” e para isso a tira de projetos importantes e que podem alavancar sua carreira.  O lugar comum diante dessas afirmações é dizer, “ué, mas então não tem como acertar! Dar trabalho é ruim, tirar trabalho é ruim.” O que fazer então? A simplicidade e o óbvio que ignoramos mostram o caminho: pergunte diretamente a ela.

A realidade varia de pessoa para pessoa, mas no geral, há coisas básicas que facilitam o retorno e a permanência no trabalho de modo mais suave e já vamos falar deles logo adiante.  O ponto aqui é: se você é liderança, RH ou familiar, ouça antes de definir caminhos ou declarar expectativas para ela. Não tente adivinhar, tenha conversas francas. Pergunte, “como fica melhor pra você agora? Como posso ajudar?”

Está comprovado por pesquisas científicas que bem-estar e felicidade são consequências da qualidade de nossas relações. O humano é um ser social que, quando apoiado pela “tribo”, se supera.  Se engajar no apoio às mães que querem ou precisam trabalhar é se conectar também com o propósito de dar suporte ao desenvolvimento das futuras gerações no momento mais definitivo: a primeira infância.

Para saber mais sobre a pesquisa de Harvard sobre felicidade e relações sociais clique aqui. 

Maternidade & Carreira: Gravidez é Saúde

Já que estamos falando de apoiar a primeira infância, é importante dar um passo atrás e olhar para a vida ainda antes do nascimento. Tenho 39 anos e estou grávida de oito meses do meu primeiro filho. Sempre trabalhei muito e tenho a sorte de estar entre as mulheres que se sentem ótimas na gestação. Até aqui mantive meus compromissos profissionais super disposta.  Mas não é assim para todas as mulheres. Muitas têm necessidades especiais nesta fase por conta dos enjoos, azia, cansaço ou complicações da gestação.

Pausas mais frequentes, programas de educação para aliviar a carga mental– em especial das mães de primeira viagem – e orientação médica são algumas medidas que as empresas podem  tomar, que fazem muita diferença na qualidade de vida e na performance das gestantes.

O que o RH pode fazer para que maternidade e carreira sejam aliadas

Se você trabalha com RH e a sua empresa ainda não tem um programa específico desenhado para dar apoio às mães, este pode ser um belíssimo projeto para a sua carreira.  As profissionais ainda carregam muita culpa por falta de informação, pela repetição dos estereótipos culturais e das expectativas irreais em torno da maternidade. Oferecer acesso às pesquisas que aliviam esta carga, criar ambientes nos quais elas tenham lugar de fala e possam ser ouvidas, são iniciativas de baixo custo e altíssimo retorno.

O cenário ideal é iniciar este suporte ainda na gestação. Quando a mulher entende que ter uma carreira é bom para si mesma e para o filho ou a filha que espera, ela sai de licença menos suscetível à (quase certa) pressão social por dedicação exclusiva à prole. Bom para ela, para a criança e para a empresa, que deixa de gastar com turnover alto na volta da licença.

Pensar em um programa para mães é uma excelente oportunidade para a sua empresa se antecipar e desenhar modelos de trabalho alinhados com as demandas da indústria 4.0.  Não há receita que funcione para todas as organizações, mas, no geral, algumas medidas simples e de custo relativamente pequeno podem fazer enorme diferença. Por exemplo:

  • Estimular a formação de grupos de mentoria com executivas sênior dispostas a compartilhar suas experiências
  • Comunicar claramente a posição da empresa de apoio à maternidade.  Lembre-se: o óbvio precisa ser dito. Se na sua organização ela não corre o risco de ser demitida porque engravidou, deixe isso claro
  • Abrir com as lideranças a conversa sobre horários flexíveis para gestantes e mães de crianças pequenas
  • Discutir com as lideranças a possibilidade de trabalho remoto para este público
  • Estudar a possibilidade de auxílio creche
  • Criar um espaço adequado para amamentação, ordenha e armazenamento de leite materno
  • Oferecer treinamentos sobre vieses de gênero aos gestores: a gente só consegue mudar quando entende o porquê
  • Criar campanhas de conscientização e estimular uma cultura de apoio à maternidade

Antes de mãe, mulher

E para você que já se viu em casa culpada porque não trabalhou tanto quanto gostaria, ou no escritório culpada porque não está em casa, lembre-se: essa expectativa sobre-humana de perfeição feminina é apenas uma construção cultural.  E cultura a gente muda. Antes de ser mãe, cada uma é uma mulher, um indivíduo com necessidades distintas. Você é workaholic? Ótimo. Quer e pode abrir mão da carreira para se dedicar aos filhos? Maravilha, sem culpa.

Assim como sua impressão digital é única, seu caminho rumo à realização pessoal e profissional também.  Encontrá-la depende de autoconhecimento e apoio. O que podemos e devemos fazer juntas é trabalhar para que nossas empresas, famílias e amigos aprendem a respeitar o jeito próprio de cada uma ser mãe.  Para tanto, basta lembrar disso: você é a CEO da sua vida.